Por David Arioch

Depois de um período de adaptação em viveiro, elas serão, enfim, soltas na natureza (Foto: Camile Lugarini/ICMBio)

Em cinco meses, 50 ararinhas-azuis devem chegar ao Brasil, repatriadas da Alemanha. O retorno à casa foi anunciado ontem (sexta-feira) durante a assinatura do Acordo de Cooperação Técnica entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a ONG alemã Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP), que mantém as aves.

Ao chegarem, provavelmente no mês de novembro, as ararinhas serão levadas para o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul, unidade de conservação criada no ano passado, em Curaçá, na Bahia, especialmente para receber as aves. O local é habitat histórico da espécie, considerada extinta na natureza desde 2000 após ser alvo durante anos de caçadores e traficantes de animais.

Depois de um período de adaptação em viveiro, elas serão, enfim, soltas na natureza. Atualmente, existem apenas 163 ararinhas-azuis em cativeiro no mundo – 13 estão no Brasil, 147 na Alemanha, quatro em Singapura e duas na Bélgica.

Em território nacional, as 13 aves estão alojadas em criadouro na Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais. Duas delas são filhotes e nasceram na semana passada. O dono do criadouro na Fazenda Cachoeira, Edson Gontijo, mostrou-se empolgado com a assinatura do acordo. Ele disse estar feliz em contribuir para um projeto tão importante para a biodiversidade brasileira, que é o repovoamento da ararinha-azul.

Ao chegar ao Brasil, as ararinhas vão para o Centro de Reintrodução e Reprodução da Ararinha-azul, que está sendo construído no interior do Refúgio de Vida Silvestre, em Curaçá.

Durante o período de adaptação, as aves ficarão sob a guarda da ACTP, que mantém 90% das ararinhas-azuis em cativeiro do mundo após receber os exemplares que estavam em instituição no Catar, recentemente fechada.

“É uma responsabilidade enorme”, disse Martin Guth, presidente da ACTP, que pagará pelo novo Centro de Reintrodução. A analista ambiental Camile Lugarini, do ICMBio, disse que a reintrodução na natureza será um processo cauteloso.

As primeiras solturas serão feitas em conjunto com maracanãs (Primolius maracana), uma outra espécie de arara, com hábitos semelhantes aos da ararinha-azul – ambas utilizam ocos de caraibeira (ipê-amarelo) para fazer seus ninhos, entre outras similaridades. Segundo a analista, antes de desaparecer, o último macho de ararinha-azul chegou a formar par com uma fêmea de maracanã.

A soltura, ainda segundo ela, está prevista no Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha Azul (PAN Ararinha-Azul), coordenado pelo ICMBio e publicado em 2012. As ações do plano têm o objetivo de aumentar a população manejada em cativeiro e recuperar o habitat de ocorrência histórica da espécie, visando à sua reintrodução à natureza.

Saiba Mais

Descoberta no início do século 19 pelo naturalista alemão Johann Baptist von Spix, e exclusiva da Caatinga brasileira, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) teve sua população dizimada pela ação do homem. A última ararinha conhecida na natureza desapareceu em outubro de 2000 e até hoje não se sabe se morreu ou foi capturado por alguém.

Desde então, as poucas que restaram em coleções particulares vêm sendo usados para reproduzir a espécie em cativeiro. Quase todas no exterior. A ararinha endêmica da Caatinga é considerada uma das espécies de aves mais ameaçadas do mundo. Em 2000, foi classificada como Criticamente em Perigo (CR) possivelmente Extinta na Natureza (EW), restando apenas indivíduos em cativeiro.


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