Embora seja difícil crer que uma pessoa possa abandonar seu animal de estimação, essa realidade ocorre com mais frequência do que se imagina e pelos motivos mais fúteis. É o que indica a pesquisa “Paixão por Bichos de Estimação” produzida pelo Ibope e o Instituto Waltham.

Nela, as estatísticas mais impressionantes configuram a falta de empatia com os animais domésticos. Nos dados, apenas 41% dos donos afirmam que levariam o animal junto, caso tivessem que se mudar. Mais da metade dos entrevistados, portanto, afirmou que deixaria o bichinho para trás ao trocar de casa.

Além disso, 14% dos brasileiros que já tiveram um cão ou gato justificaram a separação por causa da mudança de endereço, sendo que grande parte dessas famílias teria condições de adequar o animal à mudança, mas se negaram.

Outros 14% justificam o abandono alegando motivos facilmente contornáveis, alguns deles como: não ter tempo para cuidar como gostaria; porque o comportamento era inadequado; porque o filho nasceu; porque era muito caro. Entre os que já tiveram animais e não tem mais, 67% dos entrevistados responderam que o animal morreu, 5% que foi envenenado e 2% que foi roubado.

Ricardo Dias, que é professor na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP) e colaborador da pesquisa “Paixão por Bichos de Estimação”, afirma que o abandono ocorre com animais de todas as idades e por falta de planejamento.

“As pessoas são motivadas pela paixão na hora de adquirir os animais, mas qualquer alteração na estrutura da família faz com que eles sejam abandonados. Afinal, para a maioria das pessoas, eles não são prioridade. O certo é: não pense mil vezes antes de ter um bicho, pense dez mil vezes”

Outro problema recorrente que favorece o abandono é a negligência com a castração que, apesar de ser feita sem dor e não causar nenhuma alteração no comportamento dos animais, não é uma preocupação da maioria dos tutores.

A pesquisa indicou que 42% dos donos de cães e gatos no Brasil não castram seus animais. Tal irresponsabilidade se dá por desinformação, desinteresse ou falta de recursos. Essa falta de consciência pode gerar fatores como abandono e maus-tratos e uma proliferação descuidada desses animais.

“Não tem nenhum dado nacional, regional ou municipal do número de animais abandonados. É uma população que apesar de existir ninguém dá a devida atenção porque exige um grande esforço e técnicas específicas”, explica o professor.

Para a advogada e protetora de animais Ana Paula Vasconcelos as desculpas dos donos são as mais variadas possíveis. “A pessoa adota ou compra um animal pequeno e quando começa a crescer demais abandona ou quer manter amarrado. Compra um animal por impulso, por ser pequeno e fofo e se esquece que junto vem o trabalho com a sujeira, gastos, noites sem dormir”, diz.

Outros abandonos que acontecem com frequência de acordo com a advogada, que já resgatou mais de 20 animais só em 2016, são os causados por separações, nas quais nenhuma das partes quer ficar com o bichinho e também se os animais ficam velhos e doentes. “Peguei recentemente um caso que em razão do bichinho estar cego a família não o queria mais. Era um yorkshire com quase 12 anos”, relata.

Com a chegada do final do ano, a preocupação dos protetores de animais só aumenta. Ana Paula diz que essa é uma das épocas em que mais há registros de abandonos. Isso ocorre, por incrível que pareça, porque os donos querem viajar e simplesmente jogam os animais na rua. “Há algumas semanas um policial militar morador do Gama soltou um casal de huskies na rua. Os vizinhos foram devolver e ele ficou bravo, pois disse que não queria mais e pronto.”

A denúncia tem papel importante nessa questão. A Lei de Crimes Ambientais (9608/98) prevê penalidades – demasiadamente brandas, infelizmente – para crimes relacionados a abandono e maus-tratos de animais.

A pena pelo crime pode ir de três meses a um ano de detenção, além de multa a partir de R$ 500. Além disso, o Artigo 164 do Código Penal prevê o crime de abandono de animais para aqueles que deixarem animais em propriedade alheia ou na rua.