Por Jennifer Viegas

A Corte de Apelação de Maryland recentemente declarou que os pitbulls e mestiços da raça são “intrinsecamente perigosos”, mas muitos especialistas e advogados acreditam que a corte se excedeu.

Tal definição implica que todos os pitbulls, independentemente da genética e do meio, nascem com tendências violentas, algo que a ciência parece refutar.

Um estudo da Universidade da Pensilvânia descobriu que os cães que mais mordem humanos são de raças menores, como dachshund, chihuahua e jack russell terrier.

No entanto, os pitbulls são famosos por atacar e às vezes matar pessoas e outros animais. Na década de 1990, a Sociedade Protetora dos Animais de São Francisco e a Sociedade Winsconsin Humane Society tentou renomear os pitbulls socializados como “St. Francis Terriers”, mas a iniciativa foi suspensa quando alguns dos cães adotados mataram gatos domésticos e apresentaram comportamentos indesejados.

Os pitbulls nem sempre foram vistos com maus olhos. No início do século XX, a raça estava na moda e era bastante popular. Em “Os Batutinhas”, série repleta de crianças, o animal de estimação era um pitbull. Será que os cães mudaram ao longo dos anos?

Alguns, sim.

“É possível que algo tenha mudado, já que alguns cachorros dessa raça têm sido criados para brigar”, declarou Jennifer Scarlett, veterinária e co-presidente da Sociedade Protetora dos Animais de San Francisco.

A veterinária citou estudos com raposas, que mostraram que o tratamento dado a um animal pode afetar a personalidade das gerações seguintes. Os pitbulls de hoje parecem mais agressivos com outros cachorros, mas não necessariamente com humanos.

“Em um ringue de luta, às vezes a boca do cachorro é aberta à força, então eles costumam concentrar a agressividade em outros cães”, explicou.

Scarlett, que discorda da corte de Maryland e já debateu o assunto em fóruns públicos, disse que há muitos animais completamente sociáveis e bem treinados que não machucam ninguém.

“Cachorros fortes e agressivos, independentemente da raça, podem ser treinados. Mas o que é inerente e o que é ensinado, nesses casos? Será que todos os cachorros deveriam ficar soltos nos parques, por exemplo? Não”.

Muito desse comportamento está ligado aos donos, e é aí que surge o grande problema.

Scarlett disse que há pelo menos uma pesquisa em andamento, que tenta identificar os fatores que levariam um segmento da população a correr mais riscos de ser atacada por um cão.

Com base em relatos, imagina-se que fatores sócio-econômicos, castração, socialização e treinamento possam influenciar na predisposição a ataques. Há muitos casos de tragédias envolvendo bebês e filhotes não supervisionados de pitbull, rottweiler e mastiff.

Jennifer Lu, gerente de comunicações da Sociedade Protetora dos Animais de San Francisco, disse que os pitbulls podem ter uma má reputação agora, mas que isso também já aconteceu com outras raças, como doberman e pastor alemão. Alguns criadores tentaram criar versões mais agressivas desses cães para atender à demanda.

Diante disso, muitos abrigos fazem campanha contra “fábricas de cães” que colocam o lucro à frente do bem-estar dos animais. A agressividade não é a única consequência desse ato criminoso. Donos que querem cães com visual diferente, como os chihuahuas com cabeça de maçã, podem não perceber que “os criadores exploram um efeito genético que impede o crânio de se fechar”. Segundo Lu, “Isso deixa uma parte da cabeça dos cães mais vulnerável”.

O buldogue francês é uma raça amigável, mas o costume dos criadores de realizar partos por cesariana pode deixar os cães mais vulneráveis a problemas de saúde.

No final das contas, os cães são os que mais sofrem. A porcentagem de eutanásia é cada vez maior, independentemente da raça do cachorro.

Betsy McFarland, vice-presidente do The Humane Society, dos Estados Unidos, teme que o sofrimento dos cães aumente ainda mais após a declaração feita em Maryland. É possível que donos de casas proíbam os inquilinos de terem pitbulls, o que aumentará a quantidade de cães em abrigos e, consequentemente, o número de eutanásias.

McFarland concluiu que “A legislatura deveria conduzir uma investigação baseada apenas em fatos e testemunhas, considerar a ciência disponível, e tomar decisões sensatas e racionais sobre esta importante questão”.