Em época de crise, o amor parece também andar escasso no mercado. Pelo menos essa é a percepção da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais, a Suipa. A entidade particular sem fins lucrativos relata ter aumentado o número de ligações de pessoas que a procuram dispostas a “doar” seus animais para o abrigo, com a justificativa de não terem mais condições de ter o animal por conta das dificuldades financeiras.

São dezenas de pessoas que preferem dar ares de gesto nobre à prática do abandono. Foi graças a esse tipo de mentalidade que hoje a Suipa tem em sua sede cerca de 3.500 cachorros e 800 gatos, além dos 50 animais de maior porte, como cavalos, porcos e cabritos, em seu santuário em terreno em Itaguaí. Se antes da crise o número de ligações de gente disposta a se desfazer de seus cães e gatos era de cerca de 40 por dia, hoje chega a 70. E para todos é sempre dada a mesma resposta: a Suipa não tem capacidade de aceitar mais animais. O local de dez mil metros quadrados está lotado de bichanos à procura de um lar que lhes propicie mais conforto e sorte.

“O grande gargalo para dar uma vida digna aos animais é o alto índice de abandono pelos próprios responsáveis. Eles despejam o bicho que ficou velho, que precisa de cuidados médicos. Ele se torna oneroso e é dispensado. Houve época de recebermos 30 animais por dia nestas condições. Com o tempo, chegamos ao quadro de superpopulação. Por mês, só com ração são gastos R$ 180 mil, fora as demais despesas. E como somos uma organização que vive de doações, essa é uma conta que nunca fecha”, diz Isabel Nascimento, presidente da Suipa.

Uma situação que piora sempre entre os meses de novembro e março. Por conta das festas de fim de ano e do carnaval, relata ela, o índice de animais abandonados sobe de 20% a 30%. Os gastos familiares aumentam com presentes, viagens e mudanças, e o bicho sofre as consequências. Por isso, o fim do ano pode ser de quadro ainda mais triste.

Embora não saiba afirmar o motivo, ela conta que nota também o aumento dos casos de animais atropelados ou baleados atendidos pela entidade. Uma das possíveis causas pode ser a tentativa de se livrar da companhia de quatro patas que é vista como estorvo.

“Nós não podemos afirmar, mas essa é uma possibilidade. Existem também casos das pessoas quem deixam o cachorro na rua e ligam dizendo se tratar de um cão que não é seu em situação de dificuldade. Só querem se livrar da responsabilidade”, lembra Isabel.

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Por essas e outras, a Suipa procura reforçar junto à população os serviços de cuidados médicos fornecidos a preço de custo. São consultas, exames e até cirurgias realizados a preços muito inferiores aos praticados pelas clínicas veterinárias. A castração de cadelas e gatas é feita a R$ 60 enquanto que nos cães e gatos sai a R$ 50.

“É importante essa conscientização de intervir para evitar a procriação indesejada e o abandono. Não dá para aceitar que alguém que nos procure agora porque não tem condições de ficar com a cadela e toda a sua ninhada nada faça e meses depois volte a ter vários filhotes dos quais deseja se desfazer. Por isso, é importante o controle populacional através da esterilização”, pontua.

Uma castração numa clínica particular tem um custo em torno de até R$ 200. Na entidade, sai bem mais em conta. No “SUS animal”, o serviço mais caro oferecido é a cirurgia ortopédica, que não passa de R$ 550.

Outro serviço oferecido é a vacinação. É possível vacinar o animal contra a raiva por R$ 30 e contra demais doenças por R$ 40 em gatos e R$ 50 em cachorros.

“Os animais já saem daqui também castrados, vermifugados e vacinados. No caso de filhotes, a pessoa tem que se comprometer a trazê-lo quando ele completar 6 meses. Fazemos um acompanhamento pós-adoção também para nos certificarmos de que o animal está sendo bem cuidado”, conta Raquel Rocha, supervisora veterinária da Suipa.

Não bastassem as dificuldades financeiras vividas pela Suipa — que deve, só em impostos ao governo federal, mais de R$ 15 milhões —, a entidade teve roubadas, nos últimos meses, suas duas ambulâncias que prestavam socorro aos animais de rua atropelados, baleados e enfermos. Uma delas foi achada na Maré, completamente descaracterizada e desequipada, e aguarda na oficina a chance de ser consertada. Já os 700 quilos de ração que transportava, num momento atípico em que realizava frete, foram perdidos. Mesmo destino teve a segunda ambulância, roubada no Dia dos Namorados e da qual, até hoje, não se tem notícia.

Com mais estas limitações, a Suipa segue o seu trabalho, à espera de mais doadores e de pessoas dispostas a adotarem novos melhores amigos. Para ser um doador basta se associar entrando em contato com a entidade pelo telefone 3297-8777 ou pelo site e contribuir mensalmente com o valor mínimo de R$ 30.

Para adotar, basta ir à sede, localizada na Avenida Dom Hélder Câmara 1.801, em Benfica, munido de comprovante de renda e de residência, identidade e CPF, e responder a um questionário. Após essa triagem, é possível sair com o animal no mesmo dia. A Suipa também realiza evento de adoção todo sábado na Rua do Russel, na Glória, das 8h às 14h. Atualmente, são adotados de 20 a 30 cães e gatos por mês.
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Fonte: O Globo

Via: Anda.jor.br