O Departamento de Meio Ambiente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) fez uma publicação em seu site oficial por meio da qual refutou uma reportagem recém-publicada pela Revista Época Negócios, desmentindo o argumento falacioso da revista que afirmou que o “veganismo é o hábito alimentar menos sustentável”.

(Foto: Reprodução / SVB)

Conforme expôs a SVB, a reportagem da Época Negócios distorce gravemente as conclusões de um estudo no qual a revista afirma ter se baseado. Mas, além disso, o título da matéria ainda coloca o veganismo como um mero hábito alimentar, quando, na verdade, trata-se de uma filosofia de vida que não se limita apenas à alimentação. O veganismo, segundo a The Vegan Society, mais antiga e respeitada sociedade vegana do mundo, “é uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade”.

 Sendo assim, é grave o fato da Época Negócios ter feito uma publicação que induz os leitores a erro e contribui para o aumento do preconceito contra o veganismo e, por consequência, do afastamento do veganismo por parte da população. Por isso, com o intuito de apresentar a verdade à respeito da filosofia vegana, reproduzimos abaixo, na íntegra, o texto da SVB que desmente a reportagem da revista.

“Em reportagem recém-publicada (08/08/2018), a Revista Época Negócios afirma que “Veganismo é o hábito alimentar menos sustentável, diz estudo”. Segundo a matéria, o estudo concluiu que “ingerir pequenas porções de carne e leite é melhor do que não consumir nenhuma”. Ainda de acordo com a matéria, a conclusão estaria baseada no fato de que “a dieta vegana pode não aproveitar todos os recursos disponíveis, pois nem todas as pastagens comuns possuem todos os nutrientes necessários para o cultivo”.

Infelizmente, os responsáveis pela redação da referida matéria parecem não ter lido estudo original (publicado em 2016) com cuidado, já que distorcem gravemente as conclusões da pesquisa. Vejamos:

– O estudo aponta a dieta vegana como a mais sustentável em relação ao uso de terra (a área, em hectares, necessária para produzir alimento), com um requerimento de apenas de 0.13 hectares por pessoa por ano. Em segundo e terceiro lugar ficaram as duas dietas vegetarianas (ovo-lacto- e lacto-vegetariana), com 0.14 hectares/pessoa/ano. O requerimento de terras sobe progressivamente para as outras 7 dietas (onívoras) analisadas, aumentando com o aumento da quantidade de carnes na dieta (chegando a 1.03 hectares/pessoa/ano para a dieta com mais carne).

– Os resultados mostram ainda que a redução no consumo de carnes nas dietas onívoras aumentou a capacidade de sustentação (número de pessoas que podem ser alimentadas em uma área) dos ecossistemas analisados, aumentando progressivamente (tornando-se mais sustentável) na medida em que a redução no consumo de produtos animais foi maior.

– A única análise na qual a dieta vegana não esteve entre as com maior capacidade de sustentação foi um cenário fictício que considerou que vasta extensões de terras usadas para pastagem não poderiam ser cultivada com produtos vegetais – obviamente, se restringirmos brutalmente a área cultivável não é de se surpreender que teremos capacidade de alimentar menos pessoas. Ainda assim, foi a dieta lacto-vegetariana a mais sustentável neste cenário extremo – e não as dietas onívoras. Em análises mais realistas conduzidas no próprio estudo, a dieta vegana e lacto-vegetariana foram as mais sustentáveis em relação a este indicador também.

Estes resultados são, portanto, muito difíceis de conciliar com o título da matéria “Veganismo é o hábito alimentar menos sustentável”. A leitura do estudo original mostra justamente o contrário.

A conclusão de que dietas baseadas na redução do consumo de produtos de origem animal são em geral mais sustentáveis é, mais do que nada, uma conclusão lógica de princípios termodinâmicos básicos. Basta entendê-los para desconfiar de dados que apontem o contrário. Plantas são captadoras naturais de energia solar, transformando-a em energia comestível (química). Animais, ao contrário, precisam extrair a energia dos ecossistemas. Além disso, a maior parte da energia ingerida (em média 90%) não é transformada em carne (mas usada para o animal sobreviver, se locomover, manter a temperatura corpórea). A criação de animais para consumo representa, assim, um grande desperdício do ponto de vista energético. Quem não ouviu falar das pirâmides ecológicas (aquelas que mostram o número de organismos de cada tipo que um ecossistema pode manter), geralmente ensinadas em aulas de biologia? Na base das pirâmides estão as plantas, seguidas dos consumidores primários (que se alimentam de plantas) em número menor, dos consumidores secundários (que incluem animais na dieta) em número menor ainda, e assim por diante. Quanto mais ‘alta’ a posição na pirâmide, menor o número de indivíduos que o ecossistema pode sustentar. Em uma prova de biologia, parece ser que a matéria da Época seria reprovada.

Departamento de Meio Ambiente, Sociedade Vegetariana Brasileira”

Confira o estudo original clicando aqui.

Leia mais em: https://www.anda.jor.br/2018/08/svb-desmente-reportagem-diz-que-veganismo-menos-sustentavel/.

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