Cientistas alegam que a mudança climática já esta acontecendo. O mundo esta atualmente 1°C mais quente que nos níveis pré-industriais | Foto: Ringo HW Chiu/AP

Cientistas alegam que a mudança climática já esta acontecendo. O mundo esta atualmente 1°C mais quente que nos níveis pré-industriais | Foto: Ringo HW Chiu/AP

Os principais cientistas especialistas em clima do mundo alertam que estamos há apenas uma dezena de anos para que o aquecimento global alcance o teto de 1,5°C, além do qual, um aumento de até meio grau piorará significativamente os riscos de seca, inundações, calor extremo e pobreza para centenas de milhões de pessoas.

Os autores do relatório do Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) divulgado na segunda-feira alertam que mudanças urgentes e sem precedentes são necessárias para atingir a meta, considerada por eles acessível e viável, apesar de estarem apoiados no mais ambicioso acordo até aqui, que foi o Acordo de Paris, para manter as temperaturas entre 1.5°C e 2°C.

A diferença de meio grau também poderia impedir que os corais fossem completamente erradicados e aliviaria a pressão sobre o Ártico, isso de acordo com o “estudo 1.5C”, que foi lançado após a aprovação em uma reunião plenária final com todos os 195 países, em Incheon na Coreia do Sul, onde os delegados se abraçaram e alguns até chegaram as lágrimas.

“É uma linha na areia e o que ela fala à nossa espécie é que este é o momento e devemos agir agora”, disse Debra Roberts, co-presidente do grupo de trabalho sobre impactos. “Este é o maior toque de clarim da comunidade científica e espero que ele mobilize as pessoas e abra espaço para o clima de complacência”, alerta ela.

Os formuladores de políticas encomendaram o relatório nas conversas climáticas que aconteceram no encontro de Paris, em 2016, mas desde então a lacuna entre ciência e política se ampliou. Donald Trump prometeu retirar os EUA – a maior fonte histórica mundial de emissões – do acordo. A primeira rodada da eleição presidencial no Brasil, no domingo, colocou Jair Bolsonaro em uma posição a altura de cumprir sua ameaça em fazer o mesmo e ainda abrir a floresta amazônica para o agronegócio.

O mundo está atualmente 1°C mais quente que nos níveis pré-industriais (utilizados como base para o estudo). Os furacões devastadores nos EUA, as secas recordes na Cidade do Cabo e incêndios florestais no Ártico, são alguns dos exemplos utilizado pelo IPCC para deixar claro que a mudança climática já está acontecendo, tanto que seu alerta de risco foi atualizado em relação aos relatórios anteriores e foi emitida uma advertência frisando que cada fração de aquecimento adicional pioraria o impacto ainda mais.

Cientistas que revisaram as 6.000 obras mencionadas no relatório, concluíram que a mudança causada por apenas meio grau veio como uma revelação: “Podemos ver que há uma diferença e ela é substancial”, disse Roberts.

A 1,5ºC, a proporção da população global exposta ao estresse hídrico poderia ser até 50% menor do que seria em 2°C, observam. A escassez de alimentos também seria um problema menor para centenas de milhões de pessoas, particularmente em países pobres, que estariam em maior risco de pobreza relacionada ao clima.

A 2°C, dias extremamente quentes, como aqueles que vimos no hemisfério norte neste verão, se tornariam mais quentes ainda e mais comuns, aumentando as mortes relacionadas ao calor e causando mais incêndios florestais.

Mas a maior diferença mesmo seria observada na natureza. Insetos, que são vitais para a polinização de culturas, e plantas, são quase duas vezes mais propensos a perder metade de seu habitat a 2°C em comparação com a 1,5°C de temperatura. Já os corais seriam 99% perdidos na maior das duas temperaturas, por outro lado, mais de 10% teriam chance de sobreviver se a meta mais baixa fosse alcançada. Dos males o menor.

A elevação do nível do mar afetaria mais de 10 milhões de pessoas até 2100 se o aquecimento extra de meio grau trouxer uma previsão de 10 centímetros de pressão adicional sobre as costas litorâneas. E esse número de pessoas afetadas aumentaria substancialmente nos próximos séculos devido ao derretimento do gelo dos polos.

Os oceanos já estão sofrendo de acidez elevada e níveis mais baixos de oxigênio como resultado da mudança climática. Um modelo apresentado mostra que a pesca marinha perderia 3 milhões de toneladas a 2°C, o dobro do que à temperatura de 1,5ºC.

Os verões livres de gelo no Ártico, que está aquecendo duas a três vezes mais rápido do que a média mundial, chegam em um a cada 100 anos considerando meta de 1,5ºC, mas esse número de anos de intervalo cai para 10 com meio grau acima de aquecimento global.

O tempo e as metas de carbono estão em cheque. Em meados do século, uma mudança para a meta mais baixa estimada, exigiria uma reversão violenta das fontes de emissões que se acumularam pelos últimos 250 anos.

O IPCC mapeia quatro caminhos para alcançar 1.5°C, com diferentes combinações de uso da terra e mudanças tecnológicas. O reflorestamento é essencial em todos eles, assim como as mudanças nos sistemas de transporte para automóveis, trens e demais veículos elétricos e uma adoção maior da tecnologia de captura de carbono.

A poluição por carbono teria que ser reduzida em 45% até 2030 – em comparação a um corte de 20% sob a temperatura de 2°C – e chegaria a zero em 2050, comparado com 2075 para 2°C. Isso exigiria créditos de carbono três a quatro vezes maiores do que para uma meta de 2°C. Mas os custos de não fazer nada seriam muito maiores.

“Apresentamos aos governos escolhas difíceis. Temos apontado os enormes benefícios de manter o aquecimento a 1,5°C, e também a mudança sem precedentes nos sistemas de energia e transporte que seriam necessários para conseguir isso”, disse Jim Skea, co-presidente do grupo de trabalho de mitigação. “Nós mostramos que isso pode ser feito dentro das leis da física e da química. Então a última etapa do processo é vontade política”.

Jim afirma que a principal descoberta de seu grupo foi a necessidade de urgência. Embora tenha acontecido um progresso inesperado e muito bem vindo com a adoção da energia renovável, o desmatamento para agricultura estava transformando um consumidor natural de carbono em uma fonte de emissões. Os projetos de captura e armazenamento de carbono, que são essenciais para reduzir as emissões nas indústrias de concreto e eliminação de resíduos, também foram interrompidos.

Reverter essas tendências é essencial se o mundo quer ter alguma chance de atingir 1,5°C sem se apoiar na tecnologia ainda inexperimentada de modificação da radiação solar e outras formas de geoengenharia, que poderiam ter consequências negativas.

No período que antecedeu a semana final de negociações, havia temores de que o texto do relatório fosse diluído pelos EUA, Arábia Saudita e outros países ricos em petróleo que relutam em considerar cortes mais ambiciosos. Os autores disseram que nada substancial foi cortado do texto.

Bob Ward, do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudança Climática, disse que o documento final é “incrivelmente conservador” porque não chega a mencionar o provável aumento de refugiados motivados pelo clima ou o perigo de pontos críticos que podem levar o mundo a um caminho irreversível de aquecimento extremo.

O relatório será apresentado aos governos na Conferência de Clima da ONU na Polônia no final deste ano. Mas analistas dizem que há muito trabalho a ser feito, quando até mesmo nações pró-acordo de Paris envolvidas na extração de combustíveis fósseis, o que vai diretamente contra o espírito de seus compromissos. A Grã-Bretanha está avançando com o gás fracking, a Noruega com a exploração de petróleo no Ártico, e o governo alemão quer derrubar a floresta Hambach para cavar carvão.

No nível atual de compromissos, o mundo está em curso para o desastroso número de 3°C de aquecimento. Os autores do relatório estão se recusando a aceitar a derrota, crendo que os danos cada vez mais visíveis causados pela mudança climática irão mudar a opinião tanto dos governantes como da população em geral.

“Espero que isso possa mudar o mundo”, disse um dos autores do relatório, Jiang Kejun, do Instituto de Pesquisa Energética Semi-governamental da China. “Há dois anos, nem eu acreditava que o 1,5°C fosse possível, mas quando olho para as opções, crio confiança de que isso pode ser feito. Eu quero usar este relatório para fazer algo grande na China”, desabafa ele.

Jiang conta que o momento era bom, pois o governo chinês estava elaborando um plano de longo prazo para 2050 e havia mais consciência entre a população sobre o problema do aumento das temperaturas. “As pessoas em Pequim nunca passaram por tantos dias quentes como neste verão. Isso os fez falar mais sobre a mudança climática”.

Independente dos EUA e do Brasil, disse ele, a China, a Europa e as grandes cidades podem liderar o avanço. “Podemos dar o exemplo e mostrar

James Hansen, o ex-cientista da Nasa que ajudou subir o alarme sobre a mudança climática, disse que tanto o 1.5°C quanto o 2°C levariam a humanidade a um território desconhecido e perigoso, porque ambos estavam bem acima da era holocênica na qual a civilização humana se desenvolveu. Mas ele também admitiu a diferença enorme entre os dois: “o teto de 1.5°C dá aos jovens e à próxima geração uma chance de voltar ao Holoceno ou algo próximo a ele. Isso é necessário se quisermos manter as margens onde estão e preservar nossas cidades costeiras”.

Johan Rockström, co-autor do recente relatório Hothouse Earth, contou que os cientistas nunca discutiram anteriormente o 1.5°C, que foi visto inicialmente como uma concessão política para os pequenos estados insulares. Mas segundo ele, a opinião mudou nos últimos anos acompanhando as crescentes evidências de instabilidade climática e a abordagem de pontos críticos que podem afastar o mundo de um curso que poderia ser controlado pela redução de emissões.

“A mudança climática está ocorrendo mais cedo e mais rápido do que o esperado. Mesmo no atual nível de aquecimento de 1°C, é doloroso”, disse ele. “Este relatório é realmente importante. Tem uma robustez científica que mostra que 1.5°C não é apenas uma concessão política. Há um crescente reconhecimento de que 2°C é seriamente perigoso ”.

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