À primeira vista, Tutuca parece uma cachorrinha qualquer. Carinhosa, adora um cafuné, brinca, corre, late. Mas não foi sempre assim: seis meses atrás, ela era um dos 178 beagles que foram furtados durante uma invasão de ativistas ao Instituto Royal, laboratório localizado em São Roque (SP), a 59 km de São Paulo, que era acusado de maltratar animais durante experimentos de produtos farmacêuticos.

As pessoas que ficaram com os cães – e que preferem não se identificar, porque podem responder na Justiça por invasão e furto, entre outros crimes – contam que esses beagles tiveram de passar por um longo processo de adaptação até se tornar cães “de verdade”.

“Ela chegou bem judiada, sem alguns dentes, unhas sangrando, não comia, e só tomava água na seringa. E ela ainda não latia, a gente até achou no começo que ela não tinha as cordas vocais. Estava muito traumatizada, só ficava escondida em um canto. Hoje, ela é um cão. Antes, era só um experimento. Agora come, bebe, brinca e late”, conta a proprietária de Tutuca.

Na tentativa de driblar a falta de apetite da beagle, ela precisou usar a criatividade. “Eu batia a ração no liquidificador, misturava com água morna e dava na mão”, explicou a dona. Segundo ela, Tutuca tremia sempre que via um homem – ainda hoje, fica agitado e reage com muitos latidos para qualquer um.

Outro cão que foi retirado do Instituto Royal é o Batatinha. De acordo com a sua nova proprietária, que também não quer se identificar, por ser um filhote, o cão provavelmente não havia ainda sido submetido a testes. “Assim que eu o peguei, o levei para o veterinário, ele passou  por uma série de testes, retiramos o chip do laboratório e, graças a Deus, nada foi diagnosticado. Eu costume dizer sempre para ele que a ‘mamãe’ salvou a sua vida”, conta.

Encerramento do Instituto Royal
Depois das invasões no laboratório, que resultaram no furto de 178 beagles, sete coelhos e mais de 200 camundongos, além da destruição de diversos arquivos de pesquisas que estavam sendo realizadas, o Instituto Royal anunciou o encerramento de suas atividades em São Roque (SP) no dia 6 de novembro. A informação foi divulgada em comunicado enviado pela assessoria de imprensa do laboratório.

No comunicado à imprensa, o laboratório relaciona o encerramento das atividades às “elevadas e irreparáveis perdas” que sofreu com a ação dos ativistas, o que significou “a perda de quase todo o plantel de animais e de aproximadamente uma década de pesquisas”. A empresa também atribui a decisão à crise na segurança, que coloca “em risco permanente a integridade física e moral de seus colaboradores”.

Segundo o laboratório informou na época, cerca de 85 funcionários, entre médicos veterinários, farmacêuticos, biólogos e biomédicos, foram desligados da empresa. “O prejuízo causado ao Instituto Royal não é mensurável. Mas é certo que o Brasil inteiro perde muito com este episódio”, concluiu o laboratório por meio de nota.

Com mato alto e portões trancados, o prédio que servia de sede do laboratório em São Roque foi encontrado totalmente abandonado. A reportagem do G1 entrou em contato na quinta-feira (17) com a diretoria do Instituto Royal para comentar as atividades do laboratório após a invasão, mas ninguém quis se pronunciar alegando questões de segurança.

Investigação policial
A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Sorocaba (SP) está responsável por cuidar de dois inquéritos que foram instaurados para apurar o caso do Instituto Royal: um sobre a invasão e o outro, em conjunto com o Ministério Público, sobre as denúncias de maus-tratos.

De acordo com o delegado da DIG, José Urban Filho, os dois inquéritos devem ser concluídos em um prazo de 60 dias. “As investigações estão correndo em segredo de Justiça e, por isso, não podemos revelar detalhes. Apenas que 11 pessoas foram identificadas até agora, algumas já foram ouvidas e outras, que não moram na cidade, estão sendo convocadas através de carta precatória”.

Com relação aos crimes que cada uma das pessoas identificadas que participaram da invasão vai responder, o delegado explica que cada caso será avaliado individualmente, já que as pessoas tiveram participações diferentes, mas podem ser considerados os crimes de invasão de propriedade, depredação de patrimônio privado, receptação e furto dos animais.

Relembre o caso
Após denúncias de maus-tratos em animais usados em pesquisas e testes de produtos farmacêuticos – incluindo cães da raça beagle, camundongos e coelhos -, ativistas passaram a fazer protestos em frente ao Instituto Royal a partir do dia 22 de setembro do ano passado.

Os manifestantes acusaram o instituto de usar metódos cruéis na realização de experimentos. No dia 12 de outubro, ativistas se acorrentaram no portão da unidade e prometeram ficar no local até terem uma lista de reivindicações atendidas. Na época, representantes do laboratório conversaram com os manifestantes, mas, segundo uma das organizadoras do protesto, não houve acordo.

Uma reunião foi marcada entre ativistas dos , funcionários da Prefeitura de São Roque e representantes do laboratório no dia 17 de outubro, mas foi cancelada porque o Instituto Royal informou que, por uma questão de segurança, não mandaria um representante. Diante da situação, os ativistas registraram um boletim de ocorrência de denúncia de maus-tratos

O movimento ganhou adesões após boatos se espalharem nas redes socias de que o Instituto Royal estava preparando a retirada e o sacrifício dos animais da unidade. A informação foi divulgada pelos ativistas que estavam de plantão em frente ao laboratório e viram três vans e um caminhão de pequeno porte entrarem no laboratório.

Na madrugada do dia 18 de outubro, cerca de 100 ativistas quebraram o portão e invadiram o instituto. Com carros particulares, os ativistas retiraram do local 178 beagles e sete coelhos, além de destruir boa parte das pesquisas do laboratório que estavam armazenadas em arquivos do escritório.

Na época, o Instituto Royal afirmou que realizava todos os testes com animais dentro das normas e exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que a retirada dos animais do prédio prejudicava o trabalho que vinha sendo realizado. Segundo o laboratório, que classificou a invasão como ato de terrorismo, a ação dos ativistas vai contra o incentivo a pesquisas no país.

Por fim, um protesto contra o uso de animais em pesquisas, realizado no dia 19 de outubro, na rodovia Raposo Tavares, terminou em confronto quando black blocs se misturaram a ativistas. Três carros, sendo dois da imprensa e um da Polícia Militar, foram queimados, e seis pessoas foram detidas. A tropa de choque da capital teve que ser acionada para combater o tumulto e reabrir a rodovia ao tráfego.

Na madrugada do dia 13 de novembro, depois que o Royal havia encerrado oficialmente suas atividades, outro grupo voltou a invadir o local e, desta vez, levou os ratos de pesquisa que haviam sido deixados lá. Durante a invasão, seguranças foram agredidos e amarrados pelo grupo.

Fonte: G1.com

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